Rafael Arcanjo: O Livro de Tobias Verso a Verso e a Missão da Cura Divina
De todos os livros da Bíblia, o Livro de Tobias é o único onde um anjo é personagem principal ao longo de toda a narrativa. São Miguel aparece em batalha; Gabriel anuncia. Mas Rafael caminha com um ser humano durante uma jornada de semanas, conversa com ele, come com ele (aparentemente), o acompanha no momento do medo e da hesitação, resolve situações concretas de doença, demônio e amor — e só ao final revela quem ele realmente é. É a história mais íntima e mais humanamente tocante sobre os anjos que as Escrituras nos deixaram.
O nome Rafael, em hebraico Refa'el, significa "Deus cura" — e toda a missão do arcanjo no Livro de Tobias é uma demonstração do que esse nome contém: cura de doenças físicas, cura de relações feridas, cura de uma família que estava em perigo de extinção, cura de uma jovem mulher atormentada por uma força demoníaca. Rafael não é um médico dos corpos — é o médico de situações inteiras.
O Contexto Histórico e Literário de Tobias
O Livro de Tobias (ou Tobit) é um dos chamados deuterocanônicos — aceitos pela Igreja Católica como canônicos, mas ausentes do cânon hebraico masorético. O Concílio de Trento (1546) reafirmou sua canonicidade para os católicos. Fragmentos do texto em aramaico e hebraico foram encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto (Qumran), confirmando sua antiguidade.
A história se passa no século VIII a.C., no contexto do exílio das tribos do norte (Israel) pela Assíria. Tobias é um israelita justo deportado para Nínive, que mantém sua fé e suas obras de misericórdia mesmo no exílio — especialmente o enterro dos mortos, proibido pelas autoridades assírias.
A Dupla Situação de Desgraça
O Livro começa com duas situações paralelas que precisarão de uma solução comum:
Tobit, pai de Tobias (Tb 1-3): Um homem justo que, após anos de fidelidade, ficou cego por causa de excrementos de pardais que caíram em seus olhos enquanto dormia ao relento — ironicamente, depois de ter enterrado um cadáver durante a noite. Ele ora pedindo a morte.
Sara, filha de Raguel em Ecbátana (Tb 3,7-15): Uma jovem que casou sete vezes, e em sete ocasiões o demônio Asmodeu — o "destruidor" — matou o noivo antes que o casamento fosse consumado. Ela é injustamente acusada pela criada de ser ela a causadora das mortes. Desolada, ela também ora pedindo a morte.
"A oração dos dois foi ouvida diante da glória de Deus, e Rafael foi enviado para curar os dois" (Tb 3,16-17). Esta frase é o ponto de articulação do livro: as duas orações, de dois locais diferentes, chegam ao céu simultaneamente — e Deus envia Rafael como a resposta a ambas.
Rafael Disfarçado: A Pedagogia do Anonimato
Quando Tobit decide enviar seu filho Tobias a Ecbátana para recolher uma dívida, sugere que ele encontre um guia de confiança. Tobias sai e encontra um jovem "em pé diante de si, sem que soubesse que era um anjo de Deus" (Tb 5,4). O anjo se apresenta como Azarias, filho de Ananias — um nome completamente falso.
Por que um anjo mente sobre sua identidade? Teólogos como São Tomás de Aquino debateram essa questão. A resposta mais articulada é que o que Rafael faz não é uma mentira no sentido moral — ele assume uma forma de apresentação que permite cumprir sua missão sem que Tobias seja paralisado pelo terror sobrenatural. Se Tobias soubesse que caminhava com um arcanjo, sua resposta natural seria a prostração, não a jornada. Rafael usa a forma humana e o nome humano como ferramentas pedagógicas para que a missão seja cumprida com a participação ativa de Tobias.
A Jornada: Cada Etapa da Missão
Tobias 6 — O Rio Tigre e o Peixe
Na primeira etapa da jornada, Tobias desce ao rio Tigre para lavar os pés. Um peixe enorme salta e tenta engolir seu pé. Rafael ordena: "Agarra o peixe!" (Tb 6,3). Tobias o captura. Rafael instrui: "Abre o peixe, tira-lhe o coração, o fígado e a fel, e guarda-os; porque são medicinais e úteis" (Tb 6,5).
O coração e o fígado do peixe, queimados como incenso, têm o poder de expulsar demônios. A fel, aplicada aos olhos, tem o poder de curar certas cegueiras. Estes elementos — que parecem folclóricos — têm uma dimensão sacramental: são os instrumentos materiais através dos quais Deus, pelo arcanjo, age na matéria para produzir cura espiritual e física.
Tobias 6 — Rafael Revela o Plano do Casamento
Rafael propõe que Tobias case com Sara — a jovem que perdeu sete maridos. Tobias hesita, com medo de encontrar o mesmo fim. Rafael explica o antídoto: "Quando entrares no aposento nupcial, toma a brasa do incenso e coloca nela o fígado e o coração do peixe. O cheiro expulsará o demônio e ele não voltará jamais" (Tb 6,16-17). Rafael acrescenta: "E a noite toda orará com ela" — a dimensão espiritual da proteção é tão importante quanto a ritual.
Tobias 7-8 — O Casamento e a Derrota de Asmodeu
Tobias e Sara casam. Na noite nupcial, Tobias segue as instruções de Rafael: queima o fígado e o coração do peixe, o cheiro expulsa Asmodeu que "fugiu para as extremidades do Egito", e Rafael o perseguiu e o acorrentou (Tb 8,3). A oração de Tobias e Sara naquela noite — "Tobias 8,5-8" — é uma das mais belas orações de casamento das Escrituras, citada até hoje em cerimônias matrimoniais:
"Bendito és Tu, ó Deus de nossos pais, e bendito o Teu nome pelos séculos dos séculos [...] Tu fizeste Adão e lhe deste Eva como ajudante e amparo, e deles nasceu a raça humana. Tu disseste: 'Não é bom que o homem esteja só — façamos um ser semelhante a ele para ajudá-lo.' E agora não por luxúria que tomo esta irmã, mas com intenção pura. Tem piedade dela e de mim e que cheguemos juntos à velhice."
Tobias 9-11 — O Retorno e a Cura de Tobit
Rafael vai pessoalmente a Gabael para recolher a dívida de Tobit, enquanto Tobias permanece com Sara e Raguel. Ao retornar a Nínive, Rafael instrui Tobias a ir adiante para preparar a mãe, Ana, e a aplicar a fel do peixe nos olhos de Tobit. "Tobias aplicou a fel nos olhos do seu pai. Depois esperou e levantou as bordas da córnea dos dois olhos com ambas as mãos. E a catarata saiu dos olhos de Tobit como uma pele" (Tb 11,12-13). Tobit viu novamente.
A Revelação Final: Tobias 12,6-22
Este é o clímax teológico do livro. Tobit e Tobias querem dar a "Azarias" metade de tudo o que trouxeram. O "guia" os para e fala:
"Bendizei a Deus e dai-Lhe graças diante de todos os viventes, pelo bem que Ele vos fez [...] É bom guardar o segredo do rei, mas é glorioso revelar e publicar as obras de Deus." (Tb 12,6-7)
E então a revelação: "Eu sou Rafael, um dos sete anjos que estão sempre prontos a entrar na presença da glória do Senhor." (Tb 12,15)
Tobit e Tobias ficam com medo e caem com o rosto em terra. Rafael continua: "Não temais; a paz seja convosco. Bendizei a Deus por toda a eternidade. Quando eu estava convosco, não era por favor vosso que eu estava lá, mas pela vontade de Deus. É Ele que deveis bendizer todos os dias, Ele que deveis louvar."
"Quando Tobit e Tobias se levantaram, Rafael tinha desaparecido." (Tb 12,21-22)
O que a Revelação Final Ensina
Três verdades teológicas se condensam nessa cena:
1. A presença angélica é ação de Deus, não do anjo. Rafael insiste: "não era por favor vosso" — ele não estava ali porque Tobias era simpático ou porque Tobit merecia especialmente. Estava ali porque Deus o enviou. Os anjos não agem por iniciativa própria.
2. O anjo come e bebe apenas aparentemente. Rafael revela: "Eu parecia comer e beber, mas meu alimento é invisível e não pode ser visto pelos homens" (Tb 12,19). Esta passagem é importante na discussão teológica sobre a natureza corporal dos anjos.
3. A gloria pertence a Deus. A última instrução de Rafael é um redirecionamento total: o arcanjo que fez tudo aquilo insiste em que o louvor vá para Deus. O anjo não retém para si nenhuma glória — é o mediador puro, que se apaga diante de Quem enviou.
Rafael na Tradição da Igreja
São Rafael Arcanjo é invocado como: patrono dos médicos, farmacêuticos e enfermeiros; protetor dos viajantes; intercessor pelos enfermos; curador de relações maritais feridas; protetor contra possessões e opressões demoníacas.
A Igreja Ortodoxa celebra-o como "Médico das almas e dos corpos". A tradição católica associa o poço de Betesda (Jo 5,4 — onde um anjo perturbava as águas para curar) à ação de Rafael.
Sua festa é 29 de setembro, junto com Miguel e Gabriel.
Fontes Consultadas
- Livro de Tobias, Bíblia de Jerusalém (texto completo com notas críticas).
- Manuscritos do Mar Morto — fragmentos aramaicos de Tobias (4Q196-200).
- Suma Teológica, São Tomás de Aquino, I, q. 51 (sobre a corporalidade dos anjos).
- Comentário ao Livro de Tobias, São Ambrósio de Milão.
- Rafael, Médico de Deus, Pe. Réginald Garrigou-Lagrange, OP.
- Catecismo da Igreja Católica, nn. 332-336.
- João Paulo II, Catequese sobre os Anjos, 6 de agosto de 1986.
- Concílio de Trento, Sessão IV — Cânon das Escrituras (confirmação da canonicidade de Tobias).