Os Sete Arcanjos: Os Nomes, a Controvérsia do Sínodo de 745 e a Tradição Não Reconhecida

Anjos

Os Sete Arcanjos: Os Nomes, a Controvérsia do Sínodo de 745 e a Tradição Não Reconhecida

O Livro de Tobias (12,15) e o Apocalipse (8,2) concordam em que há sete anjos que estão diante de Deus. O número sete — carregado de significado teológico em toda a Escritura, expressando totalidade e perfeição — indica que esses sete são os príncipes máximos do exército celestial, os que têm acesso direto e permanente à presença divina. A Igreja Católica, porém, reconhece explicitamente apenas três deles pelo nome: Miguel, Gabriel e Rafael — cujos nomes aparecem no cânon bíblico. Sobre os outros quatro, existe uma história teológica fascinante e uma controvérsia que atravessa quinze séculos.

Os Três Arcanjos Bíblicos: Os Nomes Garantidos pela Escritura

Miguel

Miguel (Micha'el — "Quem como Deus?") é mencionado em Daniel 10,13.21; 12,1; na Carta de Judas (versículo 9); e no Apocalipse (12,7). É o príncipe guerreiro, o defensor do povo de Deus, o arcanjo que conduziu a guerra celestial contra Lúcifer.

Em Daniel, Miguel é descrito como "um dos principais príncipes" que veio ajudar o anjo mensageiro na batalha espiritual contra o "príncipe da Pérsia". Em Apocalipse 12, lidera os anjos fiéis na guerra cósmica: "Miguel e seus anjos combateram contra o dragão, e o dragão e seus anjos combateram, mas não prevaleceram."

A denominação de Miguel como "Arcanjo" aparece explicitamente em Judas 9: "O próprio arcanjo Miguel, quando disputava com o diabo sobre o corpo de Moisés." É a única vez que a palavra arkanggelos é usada em referência a um ser específico.

Gabriel

Gabriel (Gavri'el — "Força de Deus") aparece em Daniel 8,16; 9,21; Lucas 1,19.26. É o mensageiro das grandes anunciações: explica as visões de Daniel, anuncia o nascimento de João Batista a Zacarias, e anuncia a Encarnação a Maria.

Ele se identifica em Lucas 1,19: "Eu sou Gabriel, que estou na presença de Deus." Não é chamado explicitamente de "arcanjo" no texto bíblico, mas a tradição o inclui nesta classe por sua missão e por sua autoidentificação como um dos que "estão na presença de Deus" — a mesma posição que Rafael descreve para os sete.

Rafael

Rafael (Refa'el — "Deus cura") aparece no Livro de Tobias (3-12), reconhecido pela Igreja Católica como deuterocanônico. Em Tobias 12,15, ele se revela: "Eu sou Rafael, um dos sete anjos que estão sempre prontos a entrar na presença da glória do Senhor."

Esta frase é a chave: Rafael confirma que é um de sete, sem nomear os outros. É a base bíblica mais direta da existência de sete arcanjos, mas deixa os outros quatro sem nome canônico.

O Problema dos Quatro Nomes Não Canônicos

Na literatura extra-canônica — textos judeus e cristãos antigos que não pertencem ao cânon mas foram amplamente lidos e influenciaram a tradição — os nomes dos outros quatro arcanjos aparecem com relativa consistência. Os textos mais importantes são o Livro de Enoc (1 Enoc) e o Livro de Esdras (4 Esdras), além de vários textos dos Manuscritos do Mar Morto.

Os nomes que aparecem com mais frequência são:

Uriel (Uri'el — "Fogo de Deus" ou "Luz de Deus"): aparece em 1 Enoc como um dos quatro anjos do rosto divino. Em 4 Esdras, é o anjo enviado para responder às perguntas de Esdras sobre os mistérios divinos. São Gregório Magno o menciona em sua listagem dos sete.

Saraqael (ou Sariel): aparece nos Manuscritos do Mar Morto (Regra da Comunidade) como um dos quatro anjos da presença. É associado ao governo do espírito dos seres humanos.

Raguel (Raaguel — "Amigo de Deus"): aparece em 1 Enoc como o anjo que veille sobre o mundo dos anjos — uma espécie de supervisor da ordem celestial.

Remiel (ou Jeremiel — "Misericórdia de Deus"): aparece em 4 Esdras 4,36 como o anjo que preside as almas dos justos. Na tradição siríaca, é o anjo da esperança e da ressurreição.

O Sínodo Romano de 745: A Decisão Disciplinar

Em 745 d.C., sob o Papa Zacarias, um Sínodo Romano tomou uma decisão que ficou na história da angelologia: proibiu a veneração de anjos com nomes não sancionados pelas Escrituras canônicas.

O contexto era específico: circulavam na época vários textos pseudoepígrafos atribuídos a arcanjos ou que descreviam extensas hierarquias angélicas com nomes elaborados. Em certas comunidades, especialmente na periferia do Império Franco, a invocação de anjos com nomes esotéricos estava se tornando objeto de práticas que os bispos consideravam supersticiosas e potencialmente heterodoxas.

O Sínodo menciona especificamente três nomes que eram objeto de culto não autorizado: Uriel, Raguel e Tubuas (provavelmente uma corruptela de Tobuel ou outro nome). A decisão não foi: "esses anjos não existem" — foi: "não invoqueis por esses nomes, pois não são garantidos pela Escritura canônica."

A Distinção Entre Existência e Nome

Esta distinção é crucial e frequentemente mal compreendida. O Sínodo de 745 não negou que existem sete arcanjos — isso está na Bíblia (Tobias 12,15; Ap 8,2). Negou apenas que os nomes específicos preservados fora do cânon sejam confiáveis e que a invocação sob esses nomes seja segura.

O risco teológico real que o Sínodo combatia era diferente: se qualquer nome poderia ser atribuído a um arcanjo por via de textos apócrifos, nada impedia que demônios se apresentassem como arcanjos com nomes inventados. A prudência eclesiástica justificava limitar as invocações nomeadas ao que as Escrituras garantiam.

A Recepção Posterior: Entre a Cautela e a Tradição

A Tradição Etíope: Uma Igreja que Reconhece os Sete Nomes

A Igreja Etíope — uma das igrejas cristãs mais antigas do mundo, com história ininterrupta desde o século IV — manteve no seu cânon bíblico o Livro de Enoc e preservou os sete nomes com distinção. A liturgia etíope celebra os sete arcanjos pelo nome. O Livro de Anjos (Arganon Mestir), liturgia específica etíope, detalha as missões de cada um.

Para a tradição etíope, não houve Sínodo de 745 — e a devoção aos sete arcanjos pelos seus nomes tradicionais é ortodoxa e litúrgica.

As Igrejas Orientais e a Questão dos Sete

As Igrejas Ortodoxas em geral mantêm a invocação dos sete arcanjos, embora os nomes dos quatro não canônicos variem um pouco entre as tradições grega, russa e siriana. O Iconostásio das igrejas ortodoxas frequentemente mostra os sete arcanjos representados.

A Igreja Católica Latina Hoje

A Igreja Católica Latina oficial, no seu Martirológio Romano reformado em 2001, lista a festa dos "Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael" em 29 de setembro. Não existe festa litúrgica oficial para os outros quatro. Isso reflete a posição disciplinar do Sínodo de 745 — mantida por prudência pastoral, não como definição dogmática.

O Catecismo da Igreja Católica (nn. 328-336) fala dos anjos e dos arcanjos sem especificar nomes além dos três bíblicos, mantendo a mesma cautela.

Por Que o Número Sete Permanece Teologicamente Certo

Independentemente da questão dos nomes, a existência de exatamente sete príncipes angelicais é afirmada de forma que dificulta sua negação:

  • Tobias 12,15: "Eu sou Rafael, um dos sete anjos que estão sempre prontos a entrar na presença da glória do Senhor."
  • Apocalipse 8,2: "Vi os sete anjos que estão diante de Deus, e foram-lhes dadas sete trombetas."
  • Apocalipse 1,4: "Os sete espíritos que estão diante do Seu trono" — expressão que vários Padres interpretam como os sete arcanjos.

Três testemunhos convergentes no cânon: o número é sete. Os nomes de quatro deles são incertos. Mas a realidade desses quatro príncipes, embora seus nomes fiquem em penumbra, é afirmada pelas Escrituras.


Fontes Consultadas

  • Bíblia de Jerusalém — Tobias 12,15; Apocalipse 8,2; Daniel 10; Judas 9.
  • 1 Enoc (Livro Etíope de Enoc), tradução George W. E. Nickelsburg, Hermeneia.
  • 4 Esdras — texto apócrifo, edição Charlesworth, The Old Testament Pseudepigrapha.
  • Atos do Sínodo Romano de 745 — fragmentos preservados em coleções conciliares medievais.
  • Concilia Aevi Karolini, Monumenta Germaniae Historica.
  • São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos, Homilia 34.
  • Liturgia dos Santos Arcanjos, Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo.
  • Catecismo da Igreja Católica, nn. 328-336.
  • Angeli e Santi, Dom Jean Leclercq, OSB, Edizioni San Paolo.